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Título: Para a integração na américa latina: contribuição da filosofia interculturalAutor(es): Neusa Vaz e Silva
Fecha de publicación: 01 de Junio de 2010
O trabalho que ora apresento tem como objetivo refletir a importância da defesa da manutenção da diversidade cultural dos povos, em especial os que habitam a nossa América Latina, no momento em que inúmeros projetos de integração dos povos se encontram em discussão pelos órgãos detentores de poder em diferentes instancias institucionais.
Com o intuito de colaborar nessa reflexão aponto questões fundamentais para a transformação intercultural da filosofia com vistas ao estabelecimento de relações interdisciplinares em nossas instituições educacionais e comunitárias.
Neste momento em que a Universidade Marta Abreu através de seu Departamento de Filosofia propõe discussões sobre a integração e poder na América Latina, venho apresentar a filosofia intercultural como uma proposta filosófica capaz de interferir na discussão e colaborar para uma convivência solidária entre os distintos povos latino americanos.
Nunca é demais considerar que a América Latina abrange parte da América do Norte, América Central, a quase totalidade da América do Sul[2] e grande parte das Antilhas ou América Insular[3], habitada por povos que se caracterizam por um pluralismo étnico- cultural.
Os povos latino-americanos pertencem às etnias ameríndias, espanholas , portuguesas e africanas. O processo colonizador europeu, sofrido ao longo dos tempos, impôs uma nova identidade étnica[4] aos povos dominados o que fez com que índios e negros assimilassem a cultura européia ocidental ou passassem a exercê-la como forma de escapar da suposta inferioridade racial difundida, ideologicamente, pelo dominador. No entanto, em muitas regiões latino- americanas, a identidade cultural originária não desapareceu, mantendo-se clandestina, como no caso dos negros no Brasil, sobre os quais a crueldade e a negação foi a mais violenta e devastadora. O mesmo ocorreu em muitas nações indígenas remanescentes, nas quais subsiste a cultura autônoma com seus elementos culturais vivos e sua identidade étnica preservada.
No momento em que buscamos estabelecer projetos de integração com os diferentes povos que vivem no solo latino americano, estas reflexões são fundamentais uma vez que qualquer ação que envolva relações entre grupos humanos necessita ter como pressuposto fundamental a consciência e a informação de precisar os limites de interferência para que seja mantida a autonomia cultural e a correspondente organização social de seus povos, a fim de que a identidade étnica dos diferentes grupos humanos não seja ferida.[5]
A população caribenha pertence a etnias ameríndias, européias, (espanhola, francesa, inglesa) e africanas. Sabe-se que os povos africanos chegaram ao Caribe no século XVI e ocuparam principalmente o Haiti. Da mesma forma que no restante dos países que aderiram à escravidão negra, o processo colonizador foi muito intenso tendo sida internalizada fortemente a cultura dos dominadores sobre esses povos.
Entretanto, < ="em toda Amáá¿árica Latina" w:st="on"> em toda América Latina, nos tempos atuais, uma recuperação das raízes originárias, manifesta especialmente, nas expressões culturais,como na música, na dança, na linguagem, na culinária, nos cultos religiosos, é percebida. Um processo de desideologização do estigma da inferioridade de raças está avançando, favoravelmente, possibilitando espaços para a manifestação das distintas culturas.
Em síntese, esse é o contexto sobre o qual nos debruçamos neste momento com o intuito de colaborar no fortalecimento de uma comunidade de povos que, sem perder suas identidades próprias, interajam no sentido de obter uma vida mais digna, mais solidária, mais feliz.
“Integração e poder na América Latina” é o tema em torno do qual giram nossas reflexões neste XII Simpósio de Filosofia Latino americana.
Todo projeto de integração carrega consigo um encontro de culturas.
O encontro de culturas remonta desde as épocas mais remotas. É um processo nem sempre tranquilo, especialmente quando uma cultura se crê superior à outra. Sabemos que cada cultura tem vida própria e portanto qualquer aproximação cultural utilizando categorias de outra, pode resultar em uma violação. No entanto, as culturas não possuem outro instrumento de aproximação que não os seus próprios. “Não podemos saltar por cima de nossa sombra” nos diz Panikkar.[6]
A cultura não é algo artificial no homem como alguns querem crer, mas faz parte de sua própria natureza. Embora as culturas possam ser comunicáveis entre si, cada grupo humano possui a sua própria cultura. Dimensão tão natural, como algo inerente ao próprio ser humano. Daí que ferir a cultura de um povo é de certa forma feri-lo na carne, no mais íntimo de sua dignidade pessoal.
Nenhuma cultura é totalmente homogenia. Constituem-se a partir de um patrimônio cultural herdado mas dentro do processo histórico natural vão se modificando incessantemente, restringindo-se ou ampliando-se, transformando-se pela incorporação de novos elementos. Mesmo em um mesmo grupo nem todos os seus integrantes pensam da mesma forma e atuam no mesmo sentido em todas as circunstancias.
Já fizemos referência de que a América Latina é habitada por povos oriundos de diferentes culturas. Há muito mais povos do que estados nacionais. Somos uma sociedade plural, pois no interior dos Estados nacionais vivem e convivem uma diversidade de povos distintos. O processo de libertação no território americano, no afã de construir nações, tentou impor uma só língua, uma só raça, uma mesma história, uma cultura comum, mas não logrou total êxito. Embora a dominância européia ocidental seja marcante a realidade foi mais forte. A identidade étnica e cultural triunfou!
Nossos povos remontam da fusão de culturas ancestrais desta Abyayala exuberante, da cultura dualista do Ocidente europeu dominador, da colorida e ritmada África. E é no interior desse colorido exuberante que vivemos e somos desafiados a conviver. Nesse pluralismo cultural os povos indígenas continuam existindo com suas culturas próprias superando os cinco séculos de dominação colonial sem perder totalmente sua identidade cultural que não corresponde à cultura ocidental cristã. Da mesma forma os povos afro-americanos, por meio de uma luta política, buscam alcançar o controle cultural dentro de um processo de criação de novas culturas, na medida em que restauram elementos das culturas originárias da velha África, no esforço de uma afirmação da identidade étnica do negro face à autonomia perdida. O regime colonial imposto à América Latina não significou um rompimento total com o passado pré-colombiano e africano.
Dentro deste contexto é que nós, investigadores e educadores nos movemos no afã de criarmos projetos que brotem de nosso contexto pois é necessário nos fixarmos em nossa realidade profunda e renunciar a projetos alheios.
Quando se propõe uma integração, muitos aspectos referentes à cultura têm que serem considerados pois há o risco de ferir-se a autonomia dos grupos humanos na medida em que pode ser exercida uma capacidade social de decisão sobre os elementos culturais, colocando em risco o principio da autonomia.
Com o exposto, não se deseja estimular o isolamento dos povos. Ao contrário, o que a proposta que defendemos objetiva, é promover a interação entre as diferenças por meio de encontros motivados por uma opção real e responsável com a valorização das diferentes culturas, das diferentes línguas e o reconhecimento do quão fecundo é a interação entre elas.
A integração dos povos em suas diferentes nuances, é positiva, porém a que se ter presente a questão do aspecto cultural. Cada povo, cada grupo humano é orientado por categorias sócio-antropológicas. É necessário que se reconheça e respeite os valores de todas as tradições. Todo projeto alternativo que se pretenda construir deve permitir que cada povo possa ver aos demais desde a sua própria perspectiva, tornando-se necessário para tanto, que a recuperação da consciência histórica seja um passo indispensável e de importância fundamental na luta de libertação de nossos povos.
A proposta de um filosofar intercultural vem em nosso auxilio oferecendo-nos aportes para o debate na medida em que se pauta por uma ética que objetiva colaborar para uma convivência solidária entre os distintos povos.
A filosofia intercultural se caracteriza pela abertura a outros modelos de racionalidades, de fontes, de temáticas e métodos oriundos dos distintos universos culturais. Tem como transfundo uma perspectiva antropológica definida e clara.
Ante o mundo globalizado em que vivemos, a filosofia intercultural parte de uma convicção ética pelo respeito de todo ser humano no seu direito de ser e expressar-se. É uma proposta que vem colaborar para o encontro de respostas às questões que inquietam as diversas culturas da humanidade pois seu aporte está no reconhecimento da diversidade, da diferença, do contraste, condições que suscitam processos de abertura, de indefinições, de contradições, elementos que vão oferecer argumentos geradores de diálogos significativos e fecundantes para o estabelecimento de relações solidárias entre as diferentes culturas.
Devemos ter presente, entretanto, que a filosofia intercultural não tem como meta centrar-se na análise das culturas mas na busca de pistas culturais que permitam a manifestação harmônica do que concebemos como filosofia, a partir da multiplicidade das culturas com vistas a colaborar na convivência solidária entre os seres humanos das diferentes procedências culturais.
Já foi afirmado que a vocação da filosofia é acompanhar a humanidade em sua luta por humanizar-se e dignificar o mundo. Nessa perspectiva, sua fundamentação e seu conteúdo se encontram na trajetória da vida real, ou seja, devem brotar dos contextos do mundo histórico-cultural.
É importante atentarmos para o fato de que as culturas têm uma natureza histórica. Elas não surgem ao acaso mas vão se constituindo em condições contextuais, de processos naturais dentro das relações estabelecidas entre os seres humanos. Intercambio motivado pelas diferentes concepções, formas de ser e de interpretar a si e à realidade que ocorrem tanto com as pessoas do círculo familiar como do grupo a que estão inseridos. A filosofia ocorre exatamente pela e da pluralidade de formas de pensar e de fazer. Assim sendo, a filosofia, como possibilidade humana, é cultivada em todas as culturas da humanidade, afirmação fundamental para que se desfaça a idéia equivocada de muitos de absolutizar uma determinada forma e divulgá-la como única válida.
Dentro da perspectiva da interculturalidade , ao invés de absolutizar-se uma forma local da filosofia, preferimos liberar o que-fazer filosófico de toda definição definitiva a partir de uma só de suas origens culturais, e propor compreende-la como uma atividade que nasce em muitos lugares e que pode ter por conseguinte muitas racionalidades.[7]
A visão equivocada que a filosofia adquiriu deve-se ao fato de ela ter sido reduzida a uma disciplina acadêmica, perdendo sua real tarefa e seu sentido original (sophia) que é a de confrontação prático-reflexiva com os contextos da vida. A o invés de “ler” os contextos de vida, reduziu-se, no mais das vezes, em estudo de textos. No entanto, a filosofia não é tanto o estudo de textos mas essencialmente um saber contextual. “Não é um mero saber ou aprender idéias ou sistemas de pensamento, senão, e sobretudo, um saber realidade e saber fazer realidade” [8].
Mais do que uma nova orientação filosófica, a filosofia intercultural é uma maneira de ver, uma atitude comprometida, um hábito intelectual. A perspectiva intercultural nas relações supõe uma valorização mútua de parte das culturas que interatuam. Portanto, exige de cada uma delas a consciência de seus limites e a disposição de aprender da outra sem dissolver sua própria originalidade, enriquecendo-a e enriquecendo-se incessantemente. A interculturalidade se dá em um duplo movimento, querer entender e querer ser entendido. É acompanhada da disposição de retomar continuamente e em atitude de diálogo a própria visão e percepção do mundo. Em uma perspectiva intercultural o que se almeja é que os povos encontrem uma forma que permita conciliar as vantagens advindas com a evolução técnico-científica, porém de forma consciente, livre, a fim de que o acesso aos frutos da civilização seja conciliado com a preservação de suas “caras étnicas”, da singularidade e criatividade dos seus componentes culturais originários.
Todos os seres humanos estão imersos em uma determinada cultura. Realidade que se traduz em uma variedade de formas de estilos, de formas de acesso à experiência, ao conhecimento e à realidade.
Necessitamos estar cientes de que o papel do intelectual ante uma cultura que não a sua, é a de buscar por meio de uma postura fenomenológica, numa atitude interpretativa, apenas a sua compreensão, pois sua visão será sempre “desde fora”, uma vez que não pode ser sujeito de um pensamento que não é o seu.
A filosofia intercultural é um caminho não um ponto de chegada. Um caminho construído em uma relação que se estrutura de um pensamento vivido, ou seja, a filosofia intercultural só pode ser pensada dentro de uma dinâmica. O diálogo assume, dessa forma, parte essencial na nossa reflexão. Um diálogo fundado no reconhecimento mútuo entre os participantes com base na existência real das diferenças e pautado por uma harmoniosa relação de poder entre as culturas, de modo a propiciar relações de aprendizagem em um exercício de convivência.
Necessitamos buscar a compreensão dos saberes práticos, aqueles que servem de guia para responder aos desafios da construção do caminho da vida e que as pessoas, dentro dos seus respectivos contextos, vão criando. Ou seja, ao lado do saber acumulado pela tradição, a prática de uma filosofia intercultural vai exigir que esse saber participe da sabedoria do mundo e da vida do cotidiano das pessoas. Somente nessa medida, as filosofias das distintas culturas vão se relacionar, promovendo uma relação que nos permita ler e interpretar adequadamente os diferentes contextos. É uma tarefa que vai exigir o contato direto, o compartilhamento de vidas, a narratividade.
Para um fazer filosófico, sob a perspectiva intercultural, necessitamos recorrer à nossa experiência histórica. No nosso ambiente latino em geral e no brasileiro em particular, a primeira exigência é a de proporcionar as condições favoráveis que permitam que os povos falem com sua própria voz, expressando seu logos sem pressões impostas. É mister que nossa lembrança colonial, eivada pela dominação seja constantemente refletida.
Finalizando apontamos para questões fundamentais para a transformação intercultural da filosofia: primeiro seria estabelecer os pressupostos hermenêuticos e epistemológicos do diálogo intercultural em filosofia; segundo, a questão da revisão crítica do pensamento ibero-americano e do redescobrimento da América como lugar de mundos e de vida e de pensamentos plurais o que fundaria uma perspectiva intercultural e, terceiro a questão da interdisciplinaridade como característica elementar no projeto de constituição de uma filosofia intercultural.
Bibliografia Consultada:
- BATALLA, Guillermo Bonfil.Identidade y Pluralismo Cultural en América Latina.Buenos Aires: Fondo Editorial del CEHASS.1988.
- FORNET-BETANCOURT, Rául.Transformación Intercultural de < ="La Filosofia.Bilbao" w:st="on"> La Filosofia.Bilbao:Editorial Desclée de Brouwer.2001.
- PANIKKAR, Raimon.La Experiência Filosófica de la Índia.Madrid.2001.
- VAZ E SILVA, Neusa.Teoria da Cultura de Darcy Ribeiro e a Filosofia Intercultural. São Leopoldo:Nova Harmonia.2009.
- ZEMELMAN,Hugo(coord.)Cultura y Política < ="em Amáá¿árica Latina.Máá¿áxico" w:st="on"> em América Latina.México.Siglo veinteuno editores.1990.
Neusa Vaz e Silva Doutora em Filosofia Ibero-americana/ pesquisadora e membro da Associação de Filosofia e Teologia Interculturais/ASAFTI. E-mail: neusavazsilva@yahoo.com.br
[2] Suriname cultura holandesa, Guiana Francesa e Guiana, cultura inglesa.
[3] Bahamas, Jamaica, San Cristóbal, Antigua e Barbuda Dominica e Granada, cultura inglesa e Haiti cultura francesa.
[4] Usamos a expressão no sentido tomado de Guillermo Bonfil Batalla, significando, a nível ideológico, da pertença a um grupo Fundamenta-se e se expressa na prática e no domínio de um conjunto articulado de elementos culturais compartilhados que fazem possível a participação e que dão conteúdo a uma configuração precisa e singular a cada identidade étnica.
[5] Integrar não deve ser confundido com unificar.
[6] Raimon Panikkar, La experiência filosófica de la Índia. P.13
[7] Fornet-Betancourt, Rául. Transformación Intercultural de < ="la Filosofia" w:st="on"> la Filosofia, p.254.
[8] Ib.,p.256.
